Exposição fotográfica “We are STILL more Similar than Different”

  • Quando 13/11/2019 08h00 até 13/12/2019 22h00 (America/Sao_Paulo / UTC-300)
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13/11 a 13/12 .:. Saguão da Biblioteca Campus Sorocaba

Exposição fotográfica “We are STILL more Similar than Different” do Prof. Dr. Cesar Alves Ferragi (Departamento de Geografia, Turismo e Humanidades/ DGTH-So)

 

Até onde eu posso ir?

Até onde?

 

Sobre o registro e sobre o autor.

 Cola e tesoura. Agenda aberta. Uma superfície mais ou menos plana. De preferência sentado, mas já fiz recortes e colagens em pé.  Desde 1997, quando vivia em Lima, comecei a registrar aspectos do cotidiano como uma maneira de pontuar o olhar,  seja com  ponto e vírgula, exclamação, saudades, interrogações... ou garganta seca e dois pontos: até aonde me convém? Até aonde me faz bem? E, paradoxalmente, comecei a olhar para as mobilidades sem me mover, ou seja, sentado em uma cadeira. Recortando revistas, panfletos, tíquetes e encartes... e colando-os na agenda. Por vezes esse artifício me foi mais fluído e nítido. Por outras, foi truncado, dúbio e pouco claro. Já aconteceu em viagens de ônibus e avião. Na casa da minha avó no Rio de Janeiro ou embaixo de uma palmeira na Tailândia. Já deixei passar dias, semanas ou meses sem nada registrar no papel, com um acúmulo de recortes e colagens que vinham como um tsunami de memórias postas em uma noite adentro. Desse emaranhado emergem questões latentes, que são: Como desafiamos o cotidiano?  Até onde somos capazes de ir? Quais são as barreiras psíquicas e os limites simbólicos que respeitamos e que extrapolamos em nossas mobilidades? Qual o papel dos lugares turísticos e cotidianos na psique? Por quê alguém se vê atraído ou repelido pela paisagem, pela geografia de odores, sons e sabores? Aqui estão lembranças acumuladas de inúmeras mobilidades: Camboja, Uruguai, Palestina, Coreia do Sul, Etiópia e Estônia, em contraste aos Estados Unidos, Brasil, Uzbequistão, Espanha, China e  Rússia. Nações pequenas com uma grande alma; países  gigantes, com múltiplas nações.

 

 

Sobre a poética da geografia.

 Partindo da premissa de que não há destino certo ou errado, mas sim lugares que nutrem ou desidratam a psique, o presente projeto explora as viagens sob a lógica dos limites de si mesmo. Já dizia Michel Onfray, filósofo e psicanalista das viagens, que a grande questão delas (as viagens) é a descoberta da própria subjetividade.  Eis aqui a riqueza desses diários de viagens: eles permitem que eu vá aonde quiser, com colagens, anotações, bilhetes de trens, barcos, ônibus, aviões... desenhos, poemas, rabiscos e memórias afetivas. Escritas em português, japonês, inglês, espanhol ou na minha própria língua de códigos e símbolos. Esses diários representam, assim, uma poética: a poética da minha própria geografia.

 

Sobre mobilidades e  encontros.

 Nesses diários de viagens, o visitante é convidado a explorar um lado B das mobilidades. Algo como uma sombra das cavernas de Platão,  que reverberam reflexos e aspectos distintos das chamas envolventes nesses momentos da pausa na agenda, da reflexão do vivido e do ajuste de direção da semana. Reconheço aqui o olhar apreciativo que sustento nos convívios do cotidiano, quando o viajar vai perdendo seu caráter extraordinário... e penetra a rotina. Enquanto morador de centros urbanos como São Paulo (aonde resido desde 2011), Tóquio (quase 6 anos) ou Lima, Peru (3 anos), observo como cada dia aporta algo novo, um encontro. Percebo diferenças entre turistas e a cotidianidade; uma (des)construção que está frágil frente às novas tendências, no marco da mobilidade turística em contextos urbanos. Não me pergunte como são essas cidades, porque eu prefiro dizer: elas não são reais. Mas os encontros... ah, esses sim!

 

Sobre o tempo de Chronos.

 A falta de interesse pelos outros, e pelo mundo, é o que pode nos acontecer de pior. Com o tempo, atravesso as cinzas e os porões das calçadas, em um simbólico que se lança sobre os convívios cotidianos.  De São Paulo (meu nascimento em 1980), passando por cidades brasileiras como Botucatu (SP), Campo Grande (MS), Jardim (MS), Pimenta Bueno (Rondônia, por extenso para você acreditar que é aonde é), Campinas (SP) e Brasília (DF), cresci em meios urbanos e rurais. Um Brasil de vivências que aportou a riqueza de relações. Um tempo para me relacionar com o divino nas pessoas – e nos lugares. Visitas constantes à Três Corações (MG), Itapetininga (SP), Niterói (RJ) e Salvador (BA), nas casas dos parentes, tios e avós. Aos 15 anos mudei para Lima (Peru) com a família, e aos 19 anos estava em São Paulo novamente, para a vida universitária entre os corredores da ECA-USP e da EAESP-FGV. Então vieram os intercâmbios, sempre com oportunidades de bolsas de estudos em Lisboa, Cidade do México, Havana (Cuba), Austin (Texas, EUA), e Parnu (Estonia). Ufa – quantos lugares! Aos 25 mudei-me para Tóquio (Japão), com um estágio em Berlin (Alemanha).  Em 2011 São Paulo me chamou de volta, desde 2015 Paris (França) me chama todos os anos em janeiro, e em 2016 entrou Sorocaba (SP)... eis aqui em ordem cronológica algumas cidades aonde trabalhei, estudei, vivi um tempo e fui quem eu sou: um fluído contínuo de observações, sentimentos, necessidades e pedidos.

 

Sobre o tempo de Kairós.

 Do tempo de Chronos, por vezes peço licença. Tesoura, cola e papel para uma espécie de afastamento, nesses 22 anos de registros em diários de viagens. No tempo de Kairós, ah... o tempo é outro. Considerado pela mitologia grega o deus do tempo oportuno, Kairós é amplo e complexo de explicar, assim como o cheiro de um jasmim. Como Kairós é o tempo que não pertence a Chronos, ele não pode ser medido ou previsto... vive-se. Trata-se do poder do encontro, da oportunidade do instante, de uma interdependência... que atua como fio norteador da jornada de cada um. Juntos, sustentamos presença. As páginas aqui expostas expressam que, juntos, sustentamos a manifestação da consciência em nossos corpos. Por vezes, vejo a gigantesca história de milhões de anos da terra, dos clãs ancestrais, condensadas no instante do olhar, no sabor do gole, no cheiro do momento. E assim, vou canalizando traduções, emoções e insights... com tesoura, cola e papel na mão. Faço esses registros, como sombras na caverna, por todas essas coisas que acontecem sem hora marcada, por todas as surpresas da gratidão profunda, das conversas difíceis, do saber falar não, do saber pedir, do saber estar... do saber comer! Por reaprender a ser a beleza daquilo que simplesmente está latente em mim e em você. O tempo de Kairós nesses 22 anos cronológicos me convida a aproveitar a vida com mais leveza, a estar na fogueira, a juntar os pedaços de porcelana com ouro em uma obra de arte única – um verdadeiro kintsugi japonês. E assim validar uma arte de forma mais despojada, sem me importar com o tempo... Sabe por quê? Porque enquanto Chronos quantifica, Kairós, não conta pra ninguém... ele qualifica.

 

Sobre o emaranhado biomimético.

 Durante uma viagem, pela lógica da Biomimética, como olhamos e encaramos os sistemas? Confiamos no processo? Sustentamos uma presença perene, de maneira compassiva? Ou nos perdemos no isolamento exacerbado dos resorts e das bolhas do consumo? O estado de consciência harmoniza, não separa. Enquanto seres da terra, nossa composição mineral é muito parecida com as da terra. Há momentos em que choramos juntos, damos as mãos, vemos nos olhos, tocamos a nossa humanidade compartilhada ao escutar os corações – os nossos próprios e os dos outros. Ah, ao escutar lá dentro.. quanta potência! Potência vivida ao trabalhar a auto-expressão, a amorosidade, a gratidão presente no emaranhado de linhagens que se cruzam pelas mobilidades. Gargalhamos juntos, juntos dançamos, cantamos muito, desconstruídos e descontraídos que só. Outro dia, em uma conversa com Watatakalu, liderança feminina do Xingú, confirmei que os povos indígenas não possuem uma palavra para natureza. A razão é simples: quando estamos separados de algo, tendemos a nomear este algo. Os indígenas estão tão inseridos naquilo que chamamos em português de natureza, que não possuem uma palavra para explica-la. É como o peixe no mar. Nossa conexão com a natureza é real, nos faz refletir sobre as barreiras que nós próprios criamos. Em outras palavras: quanto mais eu me afasto de algo, mais eu tendo a nomear esse algo. Quanto mais eu me aproximo, mais eu me integro nessa Biomimética: biologia (água), design (ar), engenharia (terra) e business (fogo) juntos. Água, ar, terra e fogo.

  

Realidade Aumentada – se deslocar para se conhecer?

 O que você quer conhecer? Com uma parceria com a xGB, empresa fundada por Pablo Funchal, ex-aluno do MBI UFSCar e membro do grupo de pesquisa CNPq “i-Context: Inovação, Cocriação, Experiência e Territórios”, utilizamos realidade aumentada para transportar o visitante a vídeos de promoção turística dos lugares registrados em 22 anos de minhas mobilidades. O cotidiano expresso nos países nos quais vivi, estudei ou trabalhei, e as viagens por mais de 65 territórios das Américas, Europa, África e Ásia. É intencional o contraste entre o lado B – percepções próprias e únicas – e o lado A – vídeos promocionais e oficiosos dos lugares. Até onde eles fazem sentido para você?  Neste contexto mais amplo do consumo do turismo, que ocorre concomitante a vários fenômenos contemporâneos, o que nos conecta e o que nos desconecta?  Entendo o turismo como uma força que manipula o território, uma maneira de criar uma bolha...  para um turista que precisa estar protegido. Quem é você nessa fila do pão das mobilidades?  Somos AINDA mais simulares que diferentes? Baixe o aplicativo, circule pela exposição, se desloque para se conhecer... e explore suas observações, sensações e necessidades. Se tiver algum pedido, meu e-mail é: ferragi@gmail.com

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